Ora, a primeira aliança também tinha preceitos de serviço sagrado e o seu santuário terrestre. [...] Ora... continuamente entram no primeiro tabernáculo os sacerdotes, para realizar os serviços sagrados; mas, no segundo, o sumo sacerdote, ele sozinho, uma vez por ano, não sem sangue, que oferece por si e pelos pecados de ignorância do povo. [...] Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote [...] não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção. (Hb 9.1,6,7,11,12).

Alguém já disse que as palavras “... não sem sangue...” pertencem ao Velho Testamento. Porém, o que diz o nosso Senhor Jesus Cristo?

Observe, primeiro, que quando João Batista anunciou a vinda do Messias, referiu-se a duas funções que seriam realizadas por ele: primeiro, que seria “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29); e, segundo, que batizaria “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11). O sangue do Cordeiro precisava ser derramado antes que o derramamento do Espírito Santo pudesse ser concedido. Somente quando tudo que o Velho Testamento ensinou sobre o sangue fosse cumprido é que a dispensação do Espírito poderia começar.

Depois, o Senhor Jesus Cristo declarou, ele próprio, que sua morte na cruz era a razão por que havia vindo ao mundo, que era a condição necessária para a redenção e a vida que viera trazer. Afirmou claramente, em conexão com a sua morte, que o derramamento do seu sangue era necessário. Na sinagoga de Cafarnaum, falou de si mesmo como o “Pão da Vida” (Jo 6.35), e que esse pão daria vida para o mundo (Jo 6.33). Quatro vezes em seguida, falou do seu sangue: “Se não... beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos”; “quem... beber o meu sangue tem a vida eterna”; “o meu sangue é verdadeira bebida”; “quem... beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele” (Jo 6.53-56).

Nosso Senhor assim declarou o fato fundamental de que mesmo ele, como o Filho do Pai que veio restaurar-nos a vida perdida, não poderia fazer isso de nenhuma outra forma senão morrendo por nós, derramando seu sangue e, só então, tornando-nos participantes do poder que o sangue derramado oferece.

Nosso Senhor confirmou os ensinamentos do Velho Testamento – que o homem só poderá viver por meio da morte de um outro, pois só através da ressurreição é que a vida se torna eterna. Nem o próprio Cristo poderia nos tornar participantes dessa vida eterna sem derramar seu sangue e nos levar a beber dele. Que fato glorioso! A vida eterna pode ser nossa, contudo “não sem sangue”.

Igualmente impressionante é a declaração dessa verdade por nosso Senhor na última noite de sua vida na Terra. Antes de completar sua grande obra, doando a vida como “resgate por muitos” (Mt 20.28), ele instituiu a Santa Ceia, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.27,28). “Sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22).

Portanto, pelo derramamento do próprio sangue, Cristo obteve nova vida para nós. Através do que descreveu como “beber o seu sangue”, ele divide sua vida conosco. O sangue derramado na expiação nos livra da culpa do pecado, da morte e do castigo pelo pecado. O sangue que bebemos pela fé transmite-nos sua vida. O sangue que derramou foi, em primeiro lugar, para nós e, em segundo lugar, concedido a nós.

Ensinamento do Novo Testamento

Depois da ressurreição e ascensão de Cristo, ele não foi mais conhecido pelos apóstolos “segundo a carne”. Agora, tudo que era simbólico foi removido, e as profundas verdades espirituais escondidas nos símbolos foram descortinadas. Entretanto, o sangue não foi um dos símbolos removidos. Continua ocupando um lugar de destaque.

O primeiro lugar a pesquisar sobre isso no Novo Testamento é na epístola aos Hebreus, que foi escrita com a expressa finalidade de mostrar que o serviço do templo agora havia se tornado inútil e que, no plano de Deus, estava previsto que isso acontecesse após a vinda do Messias. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar nas Escrituras, era de se esperar que o Espírito Santo tivesse mostrado a mudança de sentido do sangue no propósito de Deus, se fosse mais um dos aspectos substituídos na Nova Aliança. No entanto, é justamente aqui que encontramos menções enfáticas do sangue de Jesus, dando-lhe ainda mais importância.

Veja os seguintes textos:

“...mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas” (Hb 9.12).

“...muito mais o sangue de Cristo... purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” (Hb 9.14).

“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus...” (Hb 10.19).

“Mas tendes chegado... a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão” (Hb 12.22,24).

“Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta” (Hb 13.12).

“Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor... pelo sangue da eterna aliança...” (Hb 13.20).

Por tais palavras, o Espírito Santo nos ensina que o sangue é realmente o poder central em toda nossa redenção. “Não sem sangue” é tão válido no Novo Testamento quanto no Velho. Nada além do sangue de Jesus, derramado em sua morte pelos pecados, poderá cobrir o pecado, do lado de Deus, ou removê-lo, do nosso.

O Que é Beber o Sangue de Jesus?

Temos aqui um dos mais profundos mistérios da vida de Deus em nós. Convém que nos aproximemos do assunto com profunda reverência e que peçamos ao Senhor Jesus que nos ensine o significado verdadeiro de beber o seu sangue.

Assim como a água tem uma dupla função, o mesmo ocorre com o sangue. Quando a água é usada para lavar, o resultado é purificação ou limpeza; quando é usada para beber, somos refrescados e reanimados. Todos conhecem a diferença entre as duas funções. Por mais necessário e agradável que seja usar a água para limpeza, é muito mais essencial e revigorante usá-la para beber. Sem sua ação de purificação, não podemos viver como devemos; contudo, sem bebê-la, não podemos nem viver. É só quando é ingerida que a água exerce seu poder de sustentar a vida.

Sem beber o sangue do Filho de Deus – ou seja, sem a mais plena e intensa apropriação dele – não se pode ter vida eterna.

Para muitos, pode soar estranha a expressão: “beber o sangue do Filho de Deus”, mas para os judeus que ouviram Jesus era ainda mais ofensivo, pois além da repugnância natural, na lei de Moisés o uso de sangue era proibido, sob severas penalidades. Podemos estar certos de que nosso Senhor não teria usado essa expressão se não representasse uma verdade fundamental, impossível de ser comunicada de outra forma.

Portanto, beber o sangue significa que há uma função do sangue que vai muito além de purificação ou santificação; o sangue não só realiza algo por nós, colocando-nos num novo relacionamento com Deus, mas também efetua algo em nós, renovando-nos interiormente. É isso que Jesus quis mostrar quando disse: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos” (Jo 6.53). Nosso Senhor distingue aqui dois tipos de vida. Os judeus que ali estavam tinham uma vida natural de corpo e alma. Muitos eram homens devotos e bem-intencionados, mas Jesus disse que não tinham vida em si mesmos a menos que comessem sua carne e bebessem seu sangue. Precisavam de uma outra vida – uma nova vida do alto que havia em Jesus e que só ele podia comunicar.

Todo ser vivo criado precisa buscar nutrição fora de si mesmo. A vida natural é sustentada por pão e água. A vida celestial precisa ser nutrida por comida e bebida celestiais, fornecidas pelo próprio Jesus. Nada menos do que a vida de Jesus, a vida que ele viveu como Filho do homem sobre a Terra, pode nutrir a nossa vida como novas criaturas.

Nosso Senhor enfatizou isso de forma ainda mais forte nestas palavras: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.54). A vida eterna é a vida de Deus. Jesus veio à Terra, primeiro para revelar essa vida eterna e, depois, para comunicá-la a nós que vivemos na carne. Nele a vida eterna habitou pelo poder divino num corpo de carne, que depois foi elevado ao céu. De acordo com suas palavras, aqueles que comem sua carne e bebem o seu sangue experimentarão também, em seus próprios corpos, o poder da vida eterna. “Eu o ressuscitarei no último dia.”

A maravilha é que em Cristo a vida eterna se manifestou num corpo humano. E, para nós, é tão importante ser participantes desse corpo quanto o é participarmos da vida do seu Espírito; é isso que garante que o nosso corpo, cheio dessa vida, um dia será ressuscitado dos mortos.

Jesus ainda disse: “Minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida” (v. 55). A palavra traduzida verdadeira aqui é a mesma palavra que Jesus usou na parábola da videira: “Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15.1). Ele estava mostrando a diferença entre o que é apenas um símbolo e o que é uma realidade presente. Comida natural não é comida verdadeira, pois não transmite verdadeira vida. A única comida verdadeira é o corpo e o sangue do Senhor Jesus Cristo, porque comunica e sustenta uma vida real, não uma vida simbólica ou uma mera sombra.

Para mostrar a realidade e o poder dessa comida, nosso Senhor acrescentou: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6.56). A alimentação da carne e do sangue de Jesus efetua a mais perfeita união com ele. É por isso que sua carne e seu sangue têm tal poder de vida eterna. Ele declara aqui que aqueles que crêem nele não experimentarão meras influências em seus corações, mas entrarão na mais íntima e permanente união com ele: permanecerão em Jesus e Jesus neles.

A bênção de beber o sangue do Filho do homem é tornar-se um com ele, é participar da natureza divina. É uma união tão real quanto a união entre o Pai e o Filho: “Assim como... eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta, por mim viverá” (Jo 6.57). Assim como na natureza divina e indivisível, as duas Pessoas do Pai e do Filho são verdadeiramente uma, igualmente o homem se torna um com Jesus.

O Senhor preparou para si um corpo (Hb 10.5), no qual viveu aqui na Terra. Esse corpo tornou-se participante da vida eterna. Ao comermos da sua carne e bebermos do seu sangue, a vida eterna também passa a habitar em nossos corpos, ou seja, a manifestar-se em nossas vidas.

Como Bebemos o Sangue de Jesus?

Como podemos efetivamente beber o sangue de Jesus? A primeira idéia que se apresenta é a profunda e verdadeira apropriação no nosso espírito, pela fé, de tudo que podemos compreender a respeito do poder do sangue.

Às vezes, falamos de “beber” as palavras de um palestrante, quando de coração nos dispomos a ouvir e recebê-las. Assim, quando nosso coração se enche da preciosidade e do poder do sangue, quando com verdadeira alegria nos envolvemos na contemplação dessa verdade, quando com fé e coração unido tomamos isso como nossa propriedade e procuramos nos convencer no nosso íntimo do poder vivificante do sangue, então se pode dizer que estamos “bebendo o sangue de Jesus”. Tudo que a fé nos capacita a ver da redenção, da purificação e da santificação pelo sangue, podemos absorver nas profundezas do nosso ser.

Entretanto, é evidente que nosso Senhor quis revelar algo ainda maior do que isso quando enfatizou repetidas vezes a importância de comer a sua carne e beber o seu sangue. Esta verdade mais ampla se tornaria mais clara posteriormente quando ele instituiu a ordenança da Santa Ceia. Ainda que não tenha mencionado a Ceia no seu discurso em Cafarnaum (João 6), compreendemos depois que a Ceia confirma e torna claro o que ensinou naquela ocasião.

Quando participamos da Ceia do Senhor, há algo mais do que a simples apropriação da obra redentora de Cristo. Isso fica claro no catecismo de Heidelberg (da Igreja Reformada Alemã, elaborado em 1563), pergunta 76: “0 que significa comer o corpo crucificado de Cristo e beber seu sangue derramado?” E a resposta é: “Não é apenas aceitar com verdadeira fé no coração todo o sofrimento e morte de Cristo e, assim, receber o perdão dos pecados e a vida eterna; porém, além disso, é tornar-se mais e mais unido ao santo corpo de Cristo, pelo Espírito Santo que habita ao mesmo tempo tanto em Cristo como em nós; de forma que, embora Cristo esteja no céu e nós na Terra, nos tornamos carne de sua carne e osso de seus ossos, vivemos eternamente e somos governados por um só Espírito, como os membros do nosso corpo o são por uma só alma”.

Na criação do homem, o fator especial que o distinguiria dos outros espíritos que Deus havia criado anteriormente e que o tornaria a obra suprema da sabedoria e do poder de Deus era que ele revelaria a vida do espírito e a glória de Deus num corpo formado do pó da terra. Porém, foi através do corpo que cobiça e pecado entraram no mundo. O plano de Deus através da redenção é a libertação do corpo, transformando-o em sua habitação. Só quando isso de fato acontecer é que a redenção será completa. Foi para isso que o Senhor Jesus veio na carne e levou sobre si os nossos pecados no madeiro. A Escritura afirma que habitou nele “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Assim, pela sua morte e ressurreição, Jesus libertou o nosso corpo, não só o espírito, do poder do pecado e da morte.

Como primícias dessa redenção, somos agora um corpo, como também um Espírito, com Jesus. Somos membros do seu corpo, carne de sua carne e ossos de seus ossos. É por isso que ao observarmos a Ceia do Senhor, ele vem aos nossos corpos também para tomar posse deles. Ele não só opera pelo seu Espírito em nossos espíritos, a fim de que nossos corpos participem da redenção no dia da ressurreição – mas faz com que já aqui nosso corpo seja templo do Espírito. A santificação da alma e do espírito progredirá mais gloriosamente na proporção em que toda a personalidade humana, unificada e incluindo o corpo (que tende a exercer uma influência tão contrária), participa do mesmo processo.

Na Ceia do Senhor, então, somos alimentados conscientemente pelo verdadeiro corpo e pelo verdadeiro sangue de Cristo, ainda que não seja um elemento mágico que qualquer pessoa, crendo ou não, pudesse partilhar. Ainda assim, de forma real e misteriosa, nossa fé recebe pelo Espírito o poder do corpo e do sangue celestiais como o alimento que torna a alma e o corpo participantes da vida eterna.

Beber o sangue de Jesus, então, é o profundo mistério espiritual em que a mais íntima e perfeita união com Cristo é efetuada. Isso acontece quando o coração, pelo Espírito Santo, apropria-se plenamente da comunhão do sangue de Cristo e torna-se participante verdadeiro da mesma disposição revelada por Jesus no derramar do seu sangue. O sangue é a alma, a vida do corpo; quando o crente, como um corpo com Cristo, deseja habitar perfeitamente nele, o Espírito, de forma sobrenatural, fará com que o sangue sustente e fortaleça a vida celestial. A vida que foi derramada no sangue se tornará sua própria vida. A vida do velho eu morre para dar lugar à vida de Cristo nele. Ao perceber como o beber do sangue é a mais elevada participação da vida celestial do Senhor, a fé exerce uma de suas funções mais gloriosas.

Extraído de “The Power of the Blood of Jesus” (O Poder do Sangue de Jesus), de Andrew Murray.
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